22 julho, 2011

Travessia do México - parte III

Nós seguíamos o coyote que fazia uns zigue-zagues no meio da mata, acho que pra despistar alguém... passamos por um dreno enorme, acho que era de esgoto, sei lá, e eu tomei o cuidado de passar com os pés bem nos lados pra não sujar meu tênis - não digo que era bobinha!. De repente o coyote disparou na frente, e um gigante do Maranhão me atropelou, me jogando num monte no chão! Nossa, esse devia estar com mais medo do que eu! O coyote voltou, apontou a arma pra ele, mandou que ficasse no final da fila e segurando na minha mãe, me levantou dizendo "vamos muchacha!" - pensei, "é meu fim agora, que que essa criatura vai fazer comigo agora?!"; mas ele só queria me ajudar mesmo, já que a pessoa que me enviou daqui do Brasil recomendou que o Ricardão cuidasse muito bem de mim, carga preciosa kkkkk. Ficamos nessa de correr pra lá e pra cá, igual cachorrinhos assustados por umas duas horas... até que chegamos na beira de uma rodovia, para uma caminhonete e eles descem gritando "vamos, arriba, arriba!" Jogaram todos nós, oito pessoas, amontoadas na carroceria igual a sacos de batata e seguira viagem. Diziam que nos levariam pra uma fazenda linda, onde esperaríamos pra fazer a travessia...
Meo deos! Fazenda?! Nos levaram pra um barraco, no meio do nada, que ficava nos fundos de um desmanche de carros... vizinhos eram poucos, dois ou três eu acho. Enquanto chegávamos, outra turma saía pra fazer a travessia. No barraco, haviam dois cômodos, medindo uns seis metros quadrados eu acho, chão batido, lixo por toda parte... um colchão velho no chão... Queres dormir brasilena, perguntou o coyote pra mim... olhei para as outras três brasileiras, olhei pro colchão no chão e sorri dizendo que não. Ele saiu e voltou depois, com um colchão melhorzinho, e colocou num canto... os folgados brasileiros que estavam conosco se jogaram encima, pra sair logo em seguida com uma arma apontada pra cabeça, "é pras muchachas", disse ele. Chamei elas para descansarem comigo, pois acredito que nenhuma de nós conseguiria dormir... não que adiantasse muita coisa, mas eu deitei no meio delas, esmagadinha pra ninguém me perceber. Os ratos e as baratas passeavam faceiros pelo chão de terra batido... durante a madrugada coyotes entravam e saíam contando como estavam as coisas na fronteira, tiros trocados com a polícia americana, correria, gente perdida... Eu ouvia tudo atentamente, mas não conseguia sentir medo, parecia que estava numa espécie de transe, não processava o que ouvia. Modo de sobrevivência "on". Senti fome, pois havia saído na terça-feira do Brasil e a única coisa que consegui comer foi na viagem entre São Paulo e México. O coyote trouxe uma coca-cola, uns pães velhos e mortadela, daquelas que tem aquela gordurinha branca, sabe?! Perdi a fome. Da janela nos fundos do barraco, olhava pra um pé de fruta nos fundos do terreno vizinho... ai que vontade que deu de ir lá comer, mas sair de lá, só pra ir no banheiro - olha eu otimista - que era uma casinha de madeira, com umas tábuas atravessadas e um buraco no chão... O único momento em que usei aquilo foi minutos antes de saírmos pra travessia, no fim da tarde, pois não me arriscaria a baixar as calças no meio do deserto, com um monte de homem por perto... e vai que uma cobra ou escorpião picam meu derriere branquinho?! ...é, agora a gente ri... Solução pra enfrentar a tal casinha: uma caixinha de fósforo, tipo envelope, que catei no motel em Mexicali... Acendi um, calça pra baixo, acendi todo o resto, fiz pipi e me mandei dali pra nunca mais voltar! 
"Bora" pro carro que é hora da travessia!!!

* continua na próxima e última psotagem da série ...rs... came back for more!!!!

3 comentários:

Adriana disse...

TCHAM... TCHAM... TCHAM... TCHAMMMM... Vou aguardar a próxima narrativa!!!

Beijossss, menina aventureira.

Regina disse...

Que loucura Rê, eu sei que não teria coragem de ter vivido tudo isso. Que bom que hoje você pode rir dessa experiência.

Tatiane disse...

Quando eu fui para o México em lua de mel fiquei imaginando como seria atravessar a fronteira ilegalmente, emocionante mas horripilante tbm. Nunca imaginei que "conheceria" alguém para me contar isso, estou muito empolgada :)

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